"Muitos olhos. Eu tenho muitos olhos. Dois deles trago sempre comigo e os outros deixo-os guardados, pois já estão cheios de imagens, cansados, em repouso dentro da gaveta de um guarda-fatos, na memória.
Em algumas noites vou até lá, retiro os que estão em uso e meto uns a sorte para ver se ainda estão a funcionar perfeitamente. É preciso certo ritual antes de o fazer, pois o mundo à minha volta certamente desaparecerá por alguns instantes, consoante mudo os orgãozitos que me servem para mergulhar em abismos de percepções. O ritual é feito de silêncio e portas fechadas. O mundo é diferente de acordo com os olhos que estão em uso: os atuais mostram-nos o mundo quotidiano, repleto de detalhes que cismamos ignorar; os que estão guardados mostram-nos os momentos presentes que fomos acumulando até tornarem-se o passado de que somos feitos.
Com uns olhos escolhidos à sorte, chego-me à varanda. Basta um instante e a paisagem já se torna outra. E se não fosse um acaso milagroso, que me fez tropeçar naquela pedra no meio de um caminho do passado, estaria eu com os olhos trocados até agora.
Algumas pessoas – aquelas que já se esqueceram de onde puseram as chaves das gavetas dos guarda-fatos da memória -, sempre que vêem alguém que se esqueceu de recolocar os olhos habituais, insistem em dizer aos ouvidos quotidianos mais próximos:
— Olha, aquele vive a olhar para o nada.
Essas pessoas, coitadas, que não entendem nada de rituais de silêncio e portas fechadas ficam assim perdidas e a dizer asneiras sobre o que desconhecem. Pobres daqueles que só dispõem de um par de olhos e um quotidiano que cismam ignorar."












