Como diria Clarice: várias faces do mesmo eu..


"Ainda que em dias sem tempo quem sempre arranja tempo para aparecer é ela, a saudade. Em meio a corridas para cumprir horários, leituras dinâmicas para entregar tudo no prazo ela sempre chega trazendo a presença de dias que não voltam. A ciência avança e inventam solução para tudo ou quase tudo, mas ainda não tem um jeito de se voltar de fato ao passado e de se reviver nem que seja por um instante algum momento feliz. Eu trocaria qualquer dia do futuro por um minuto de novo ao lado de quem me rouba os pensamentos. Também não há nada que tenha sido inventado que nos faça viver no presente, estamos sempre presos em um tempo que não é o agora. Estamos no passado, na lembrança feliz, na tristeza ainda não superada ou esperançosos pelo futuro no qual tudo voltará a ser como no passado ou tudo será diferente do presente. Estamos até mesmo no futuro mais próximo aguardando o relógio marcar o fim do expediente para poder ser feliz na volta ao lar ou para aproveitar o fim de semana com os amigos. Nunca estamos no presente nem que seja desejando nunca esquecer o que se vive agora. Algumas vezes a gente queria mudar aquele momento em que tudo mudou, repetir aquele abraço, retribuir aquele beijo, dizer que amava e não sabia, dizer que sabia ou até dizer que amava e sabia, mas temia. Outro dia eu pedi que ele voltasse e durante mais um compromisso eu o vi de novo, à minha frente, lindo. Era ele, era eu, o tempo mesmo que por um instante o trouxe de volta. Mas aos nos olharmos, surpresos, mesmo que por segundos reconhecemos que a gente não mais se reconhecia. Era ele hoje, era eu hoje, e o que vivemos já estava no ontem, não éramos mais como antes e não adianta a gente voltar, pois o que havia não volta junto como que por mágica. O amor é como o sono em noite de insônia, se você não está atento e sonha junto no exato momento em que ele chega o tempo passa. Do mesmo jeito se você não está atento no momento em que alguém chega o tempo passa e te resta a solidão. Então se tem que aceitar que o lugar dos amores que não deram certo é na lembrança e não no futuro. Não na lembrança amarga das culpas e dos erros, mas na lembrança doce de quem te deu momentos felizes. E as lembranças acolhem o que chega ao fim no amor, pois o que termina no amor é o relacionamento e não o sentimento. A relação pode durar dias, meses ou anos e um dia acabar, mas o sentimento pode ser para sempre. Pode se continuar amando, mesmo sem mais ter, ver, ouvir, mas ainda se sentir. A lua minguante tímida intimida a confessar esse amor crescente que deixa a alma cheia de vontade de te ter na nova, nova vida que a gente teria se no céu alguma estrela cadente pudesse mesmo sonhos realizar. Então, lua, eu te digo que você estava sobre nós quando por segundos nós dois nos vimos de novo testemunhando que eu não mais vejo, não mais ouço, mas ainda sinto e amo, e no dia seguinte - e em todos os que se seguiram - chega a saudade, que tantas vezes é o sobrenome do amor, para me dar de volta o nosso tempo. Assim, confesso, sim, ainda quero você como o tempo não quer nada além de ser eterno. E eu sigo pensando em como seria se você estivesse aqui ou quem sabe se eu estivesse aí."

" Sem pressa, sim. Com planos, sempre! "
"Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique."

(Verônica H.)
"Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder ás minhas próprias perguntas. E tenho que ser serena para aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto."

(Martha Medeiros)

"Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje… Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina… E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar.."

(Tati Bernardi)
"Eu hoje joguei tanta coisa fora... eu vi o meu passado passar por mim.. cartas e fotografias, gente que foi embora.. a casa fica bem melhor assim.."

"Fez das velhas roupas, novas.
Comprou um livro dos caras que toca o seu coração.
Levantou cedo e foi cortar o cabelo; pediu pra cortar bastante e pra colorir também.

Sentou no meio do quarto.. olhou em volta.. olhou aquelas coisas que ainda estavam lá; e nem mesma ela sabia explicar o que ainda estavam fazendo lá..
Tirou as teias de aranha que cultivava, achou alguns livros, fotografias perdidas dentro de cadernos do colegial.. recado na prova de filosofia que a professora-amiga havia deixado.. recado do melhor-amigo que depois viera ser o namoradinho..

Jogou fora todas as coisas insuportáveis.. sentiu-se melhor..
Agora tem espaço.. espaço na casa.. espaço no coração...
E ninguém entenderia a importância disso."
"Teus sinais me confudem da cabeça ao pés, mas por dentro eu te devoro..."

"Era manhã sem madrugada porque essa outra tinha secado chata por não ter sido consumada. Era súbito e direto o sol no seu rosto, seu nariz fazia curvas engraçadas pela bochecha, na sombra que desfigurava e fazia a menina franzina ser tão maior do que ela era. Era estranho, mas era bom ao mesmo tempo. Assim fácil, assim completamente incompleto.

A vida dá umas voltas estranhas e no final das coisas elas podem acabar exatamente no começo delas. Mas ela precisava de alguma coisa menos inacabada para poder seguir em frente. Precisava ser completa para poder completar os buracos e as vielas no meio do caminho. Ela precisava chegar ao meio do caminho inteira.

E foi sem querer que alguma coisa, naquela noite estranha, disse pra ela que por mais errado que pudesse parecer, estava certo. Ela quis muito e quem quer muito faz força demais e, mesmo que doa, consegue. Não foi na primeira, nem segunda e nem na décima. Não foi florido, nem corrido, nem demorado demais. Não foi fácil porque se assim fosse ela dificilmente se interessaria.

Tantas vezes falou pra si mesma que não ia mais ser assim. Tantas vezes chorou por horas em ombros diferentes na esperança de, numa dessas, achar o ombro certo e esquecer de todos os outros, de todas as coisas, de tanta coisa molhada e inacabada. O sol desfigurou a verdade de sonho, mas a noite trouxe de novo a estória que ninguém contou pra ninguém, por ser dela e de mais ninguém, pela primeira vez.

Muitas vezes acreditou no óbvio e teve medo de olhar pra frente com um olhar menos apreensivo que pudesse, talvez, fazer ser a vez dela de voar. É verdade que vieram os bacanas, os interessantes, os bonitos, os babacas. É verdade que vieram as crenças, as esperanças, os sorrisos, os desapontamentos. É bem verdade, também, que ela vivia jurando de pé junto que ia parar por ali, pra sempre, por esse ano, por um mês, por hoje.

Só que não houve fórmula infalível dessa vez, dessa vez não dependia dela e muito menos do empenho dela - embora mesmo assim ela tenha se empenhado só para não perder o eterno costume de carregar tudo nas costas para depois dizer que foi sofrido. Achava bonito sofrer. Achava poesia nas coisas idiotas. Achava que um dia isso ia valer à pena.

E a gente não vai saber, ainda, se dessa vez valeu. Ninguém vai saber, nunca, por completo por onde andaram dadas com outras, as mãos dela. Não dá para adivinhar quando ela sente e quando ela finge e quando ela simplesmente não tem controle do que passa por ela turbulento ou calmo.

Mas vale à pena - pra ela, pra mim e pra você - olhar direto e sempre pra frente. Vale à pena fechar os olhos para o que não serve e abrir assim, só quando der mesmo vontade. Vale à pena agredir as morais questionáveis da vida e, definitivamente, não passar vontade. Valeria à pena, inclusive, se empenhar em algum final bonito, poético e pensável para esse texto. Só que eu acho que para ela, às vezes, falta vontade.

E chame egoísta se quiser, mas acho que muito certo faz a pessoa, de guardar o motivo dos seus sorrisos, só para ela."
"Área de circulação – proibido parar ou estacionar ainda que você não tenha mais força para acelerar. Esse aviso é para nós, os patéticos, que admitimos cansaço e nos recusamos a continuar."
"Não temo não saber o que falar, porque é fato aceito, consumado, que não vou saber. O medo é encontrar você pelos arredores do bairro. A tua preferência por cores escuras ainda é lembrança viva dentro de mim; e eu tenho uma vontade enorme, danada, de correr, sabe, de sumir, quando vejo um azulmarinho ganhando as calçadas da cidade por aí. Eu não tenho medo de você. Eu tenho medo é de querer.
Respeite o fato de que, por enquanto, a cidade também é minha e de que me assusta a possibilidade da presença de tons sujos. Os meus vermelhos palpitam se eu imagino cruzar com você nas avenidas que nem são dos meus atropelamentos, mas a sua presença me atropela: eu despedaçada, estilhaços de uma felicidade que não foi.
Te incendeio dentro de mim. Não é sempre. É só quando dá vontade de te ver feio, desfigurado. É só algumas vezes, durante a manhã, quando o sol parece não se importar e eu lembro da nossa preferência por lugares frios. E eu lembro de você. Você: a grande maravilha: incólume, sempre: a Muralha da China, você.  E eu sempre assim, toda aos pedaços, mas forte, consciente de que pra viver é preciso sabotar você.
Ou ir embora. Deixar que cada pedaço desse chão que odiamos seja só teu. Te matar de inveja quando eu conviver com a neve. Me matar de tristeza porque você não estará, ainda que pra me despedaçar e dilacerarmos nossos corações de novo nesse jogo eterno jogo-de-quem-pode-mais. Nunca é game over sem você."

"...ah, essa mulher, essa menina - precisava sair daqui deste planeta que, tão frequentemente, parece não comportar a sensibilidade."
"A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora..."

(Caio F. Abreu, meu sábiooo)
"O que há em mim é sobretudo cansaço Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto alguém. Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -; Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada - Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço. Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço..."
 
(Álvaro de Campos)
"Em vez de tentar escapar de
certas lembranças,o melhor
é mergulhar nelas e voltar
à tona com menos
desespero e mais sabedoria."
"E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham:que existir é coisa de doido, caso de loucura.
Porque parece. Existir não é lógico."
"Meteu a mão no peito e tirou dele o coração,
que guardou numa tupperware com tampa amarela na prateleira mais baixa da geladeira.
Só para se prevenir.
Nunca se sabe o que pode acontecer quando se leva o coração a uma despedida."
"Preocupação é para despreparados
o que sei e me basta
não é o que vem ou o que foi
é isso que é e que a vida me faz
o que acontece entre a possibilidade
de um pensamento e o outro
o que sou não é resultado de um propósito
me tornei espelho das escolhas
não me perdi na direção
quem se perde tem um destino
eu procuro um futuro."

(Cáh Morandi)

"Fui abençoada com um coração meiguíssimo e em contrapartida com um pavio bem curto. Exatamente igual a um vidro: se me jogar no chão, eu quebro... mas se me pisar, te corto!"

(Martha Medeiros)
"Plenitude é quando a vida cabe no instante presente sem aperto e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada." 

(Ana Jácomo)
"Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse." 
  
(Rubem Alves)